DevOps precisa saber programar? A resposta que os roadmaps não mostram
O dilema dos roadmaps versus a realidade do mercado
Se você já estudou DevOps ou SRE, provavelmente já se deparou com aqueles roadmaps clássicos: Linux no centro, containers orbitando, uma nuvem gigantesca cobrindo tudo, pipelines de CI/CD cortando o diagrama, segurança formando uma muralha ao redor e monitoramento fechando o ciclo.
Eles são visualmente bonitos, organizados e passam uma sensação de completude. Dão a impressão de que, seguindo aquele caminho, você estará “pronto para o mercado”.
Mas então você abre uma vaga real de DevOps Pleno e encontra algo como:
Requisitos: Python (Databricks), Node.js, NestJS, MongoDB, PostgreSQL, SQL, Kafka, Kubernetes, Java.
E aí surge a pergunta inevitável:
“Solicitar linguagens de programação para uma vaga DevOps faz sentido?”
Afinal, se você olhar apenas para os roadmaps mais populares, linguagens de programação quase nunca aparecem como protagonistas.
É justamente nessa diferença entre o mapa teórico e a realidade prática do mercado que mora a discussão mais honesta sobre o que significa ser DevOps hoje.
DevOps que não sabe programar precisa tirar o “Dev” do nome?
Recentemente, em uma discussão sobre o tema, alguém soltou a frase:
“DevOps que não sabe programar precisa tirar o Dev do nome do cargo.”
A frase é dura. Provocativa. E, para muita gente, ofensiva.
Mas ela não surge do nada. Ela nasce de uma frustração real entre expectativa e entrega.
A pergunta correta não é se a frase é educada, mas sim: em que contextos ela faz sentido?
Vamos destrinchar isso com calma.
O que as empresas realmente querem quando contratam DevOps?
Existem empresas que precisam, majoritariamente, de alguém para:
- Gerenciar cloud
- Configurar serviços
- Manter clusters funcionando
- Garantir disponibilidade e segurança
- Monitorar ambientes
Nesses casos, o papel se aproxima mais de um engenheiro de soluções cloud ou infra tradicional moderna. Existe automação, claro mas geralmente o código já existe. Você executa, ajusta, mantém.
Agora, existe outro cenário cada vez mais comum.
Empresas que querem alguém que:
- Automatize fluxos complexos
- Construa pipelines inteligentes
- Crie ferramentas internas
- Desenvolva plataformas para outros times
- Melhore a experiência do desenvolvedor
Nesse cenário, não saber programar vira um gargalo real.
Perceba o ponto central:
Não é uma discussão de “sabe ou não sabe programar”. É uma discussão de para qual problema você está sendo contratado.
Os dois mundos do DevOps
Para simplificar, podemos pensar em dois extremos. A maioria das pessoas está em algum ponto entre eles.
Mundo 1: O Gerenciador de Infraestrutura
- Foco: Cloud, containers, orquestração, redes, segurança
- Código: Shell Script, YAML, pequenos scripts em Python
-
Mentalidade:
“A infraestrutura precisa estar disponível, segura e escalável”
- Roadmap típico: Linux, Docker, Kubernetes, CI/CD, Cloud, Observabilidade
Aqui, programação é uma ferramenta auxiliar, não o núcleo do trabalho.
Mundo 2: O Facilitador do Ciclo de Desenvolvimento
- Foco: Automação de pipelines, plataformas internas, DX
- Código: Python, Go, Node.js, Java
-
Mentalidade:
“Como posso reduzir o atrito entre ideia e produção?”
- Roadmap real: Infra + linguagens + arquitetura + mensageria + APIs
Aqui, programação é parte central do trabalho.
A grande maioria dos DevOps modernos vive entre esses dois mundos. E quanto mais você se aproxima do segundo, mais programação deixa de ser opcional.
A visão do Vale do Silício (e o que quase ninguém explica)
Muita gente comenta:
“Sigo pessoas da gringa, do Vale do Silício, e os roadmaps deles falam só de Linux, containers, cloud, CI/CD e segurança. Nunca falam de linguagem de programação.”
Essa observação é excelente. E ela revela algo fundamental:
O que é “básico” depende do contexto
Em empresas como Google, Netflix, Amazon, Airbnb:
- Saber programar é pressuposto Não é diferencial, é ponto de partida.
- Infraestrutura é código Terraform, Pulumi, Crossplane, CloudFormation tudo versionado, testado e revisado.
- Plataforma é produto Times de DevOps/Platform constroem ferramentas que outros desenvolvedores usam diariamente.
- A escala exige software, não scripts Shell scripts não escalam sozinhos. Sistemas, sim.
Por isso eles não colocam “Python” ou “Go” nos roadmaps. Seria redundante.
É como um curso avançado de pilotagem que não menciona que você precisa saber dirigir. Isso já foi resolvido antes.
Afinal, o que um DevOps precisa saber de programação?
Um modelo prático por níveis
Nível 1 Sobrevivência (obrigatório)
Todo DevOps deveria saber:
- Shell Script (Bash) Automações simples, cron jobs, scripts de deploy
- Python básico Scripts, APIs simples, automação, logs
- Leitura de código Entender aplicações em Node.js, Java ou Python quando algo quebra
Esse nível evita que você fique refém de outras pessoas.
Nível 2 Eficiência (diferencial real)
Aqui você começa a ganhar produtividade:
- Python intermediário
- Infraestrutura como Código (Terraform, Pulumi)
- Noções de Go ou Node.js
- Integrações entre sistemas
- Automação mais robusta
Você deixa de “apagar incêndios” e começa a eliminar causas.
Nível 3 Plataforma (estratégico)
Nesse nível, você atua como engenheiro de plataforma:
- Desenvolvimento de ferramentas internas
- Design de APIs
- Arquitetura de software
- Mensageria (Kafka, RabbitMQ)
- Bancos de dados
- Dashboards e portais internos
Aqui, você não “dá suporte”. Você cria produtos internos.
O ponto que quase ninguém fala: o legado também é seu problema
Se a empresa tem:
- Um sistema de deploy em Java 8
- Um orquestrador em Node.js
- Um pipeline crítico em Python mal documentado
E isso roda produção…
Alguém vai ter que manter.
Esse alguém costuma ser o DevOps.
Infraestrutura não existe isolada. Ela serve ao software. E software é código.
Quando programação deixa de ser técnica e vira estratégia
DevOps como construtor de plataformas
Empresas maduras param de ver DevOps como “quem cuida dos servidores” e passam a ver como:
Quem fornece a plataforma de desenvolvimento
E plataforma é produto.
Produtos precisam de:
- Experiência de uso (DX)
- Documentação
- APIs bem desenhadas
- Feedback
- Evolução contínua
Nada disso se constrói só com YAML.
A analogia da casa (adaptada)
- Dev desenha os cômodos
- QA vive a casa antes de todo mundo
- DevOps constrói a infraestrutura inteira
Só que hoje a casa é feita de código.
E quem constrói casas de código precisa entender:
- Como os dados fluem
- Como as requisições chegam
- Onde a estrutura aguenta ou quebra
Como evoluir sem surtar
Se você é do “Mundo 1” e quer ir para o “Mundo 2”
- Comece por Python
- Entenda uma aplicação real da sua empresa
- Automatize algo chato
- Contribua com pequenos códigos
- Estude IaC de verdade, não só copiar módulo
Se você é dev e quer migrar para DevOps
- Linux e redes no nível sysadmin
- Containers e Kubernetes
- Cloud como operador, não só usuário
- Segurança básica (IAM, certificados, SSH)
No fim, os dois caminhos convergem.
Conclusão: DevOps precisa saber programar?
A resposta honesta é: depende do impacto que você quer gerar.
- Infra tradicional → scripting resolve
- Startups e scale-ups → programação importa
- Plataformas e big tech → você é um desenvolvedor de infraestrutura
Os roadmaps não mostram isso porque:
- Alguns assumem conhecimento prévio
- Outros simplificam demais
- Nenhum consegue capturar toda a realidade do mercado
No fim:
DevOps não é cargo. É mentalidade.
E essa mentalidade, aplicada com código, cria sistemas que não apenas funcionam — mas fazem times inteiros performarem melhor.
Então, voltando à pergunta inicial:
“Solicitar linguagens de programação para uma vaga DevOps faz sentido?”
Faz. Quando a empresa quer alguém que resolva problemas com código, e não apenas com configuração.
E você? De que lado dessa ponte quer estar?