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QA como aliado estratégico

QA como aliado estratégico

A verdadeira essência do QA

O QA não é só um testador. É a voz do usuário dentro do seu time.

Vamos fazer uma analogia simples.

Imagine que você está construindo uma casa. O desenvolvedor é como o pedreiro ele pega o projeto e ergue as paredes, instala a fiação, faz o concreto. O arquiteto (que aqui seria o produto) desenha os cômodos, decide onde fica a cozinha, quantas janelas terão.

E o QA? Ah, muita gente ainda pensa nele como o fiscal que aparece no final da obra, com uma prancheta na mão, batendo na parede pra ver se tá firme.

Mas não é bem assim.

Na verdade, o QA seria o primeiro morador da casa. Aquele que chega quando ainda tem pó no chão, anda pelos cômodos vazios, abre a janela pra ver como entra a luz, sobe a escada e percebe se o degrau é muito alto. Ele sente o espaço antes de ter móveis, antes de ter cortinas ele experiencia a casa pela primeira vez, exatamente como quem vai morar nela um dia.

No desenvolvimento de software, é isso que um QA faz quando atua com propósito: ele não só testa funcionalidades. Ele vive o produto antes do usuário final chegar. Ele clica onde não devia, tenta o fluxo ao contrário, esquece a senha, fecha o navegador no meio do processo tudo pra garantir que, na vida real, nada quebre a experiência de quem realmente importa.

E quando a empresa percebe isso, algo mágico acontece: o QA deixa de ser aquele “caça-bugs” que trava a entrega e vira um aliado estratégico. Alguém que não só aponta problemas, mas ajuda a construir soluções melhores do código ao design, da usabilidade ao negócio.

Porque no fundo, qualidade não é checklist. É cuidado.


Do checklist à experiência real

O dia a dia de um QA que pensa como o usuário

Vamos pegar um cenário que todo mundo conhece: uma tela de login.

Se o QA testar só pelo checklist, ele vai verificar:
✓ Campos obrigatórios funcionam?
✓ Login com credenciais corretas dá acesso?
✓ Com senha errada, mostra mensagem de erro?
✓ Recuperação de senha envia e-mail?

Tudo certo, tudo funciona. Pode liberar para produção.

Só que aí chega o usuário de verdade.

Agora, se o QA testar pensando como o usuário, a coisa muda.

Ele não só testa ele se coloca no lugar. Ele imagina:

  • O usuário está no ônibus, com o celular em uma mão e uma sacola na outra. Consegue digitar e-mail e senha sem errar?
  • Errou a senha três vezes. A mensagem é clara ou só aparece um alerta genérico: “Erro”?
  • Marcou “lembrar-me” naquela vez. Se limpar o cache do navegador, ele ainda fica logado? E se voltar depois de um mês?
  • E se ele clicar no campo e o teclado virtual do celular tampar o botão “Entrar”? Vai precisar fechar o teclado pra conseguir clicar?
  • Recuperou a senha, mas o link do e-mail expira em 5 minutos. E se ele só abrir o e-mail 10 minutos depois?

Percebe a diferença?

O primeiro QA garante que funciona.
O segundo garante que serve.

E essa mudança não vem só do QA ela nasce de uma cultura que olha além da funcionalidade e se importa com a experiência real.

Porque no fim das contas, não basta o login “funcionar”.
Ele precisa funcionar na vida da pessoa.

O QA que enxerga o que o card não conta

Na rotina do time, o produto define o que precisa ser feito. O desenvolvimento pensa como fazer acontecer.

E o QA?
Bom, ele tem um olhar que vai além um superpoder discreto, quase invisível. Ele consegue enxergar o que ninguém disse, o que ficou entre as linhas do requisito, o cenário que todo mundo achou óbvio demais para mencionar.

Vamos para um caso real, do dia a dia:

O produto pede:
“Precisamos de um botão ‘exportar relatório’.”

O desenvolvimento implementa:
Botão clicável, geração de CSV, tudo no padrão. Funciona perfeitamente.

Aí chega o QA e pergunta:

  • E se o relatório tiver 50 mil linhas? O navegador do usuário vai travar?
  • O arquivo vai ser baixado direto, mas… o usuário vai saber onde ele foi salvo?
  • O nome do arquivo é só ‘relatorio.csv’ ou inclui data, tipo de relatório, algo que ajude a organizar depois?
  • E se o usuário clicar duas vezes rápido no botão? Vai gerar o relatório duas vezes, sobrecarregando o sistema?
  • E se a exportação demorar? Tem algum feedback visual um loading, uma mensagem ou a tela só fica parada?

Essas perguntas não são “chateação de teste” nem “burocracia”.
São refinamento de produto acontecendo em tempo real.

Porque muitas vezes, o que está escrito no card é só a ponta do iceberg. Quem mergulha nas entrelinhas é quem vive o produto antes do usuário e enxerga as falhas antes que elas virem problemas.

Quando o QA é ouvido, a funcionalidade não sai apenas funcionando.
Ela sai pensada.

E no fim, isso não é papel só do QA.
É sinal de um time que sabe que qualidade não se testa no final se constrói desde o começo.


O QA como sensor de melhorias

Quando a cultura de qualidade realmente se enraíza na empresa, algo bonito acontece: o QA deixa de ser aquela figura que “atrasa a entrega” e passa a ser vista como quem prevê problemas antes deles acontecerem. E o mais interessante? Esses problemas podem estar em qualquer canto não só no código.

O QA vira uma espécie de radar humano, captando sinais fracos em várias frentes:

Melhorias de design que passaram despercebidas

  • “Esse botão verde normalmente significa ‘avançar’, mas aqui ele cancela a ação. Pode confundir o usuário.”
  • “Para chegar na ação principal, o usuário precisa rolar três telas inteiras. Será que conseguimos trazer isso mais para cima?”
  • “No celular, quando o teclado aparece, esse campo importante desaparece da tela. O usuário nem sabe que ele existe ainda.”

Melhorias de produto que ninguém tinha considerado

  • “Esse fluxo tem cinco etapas, mas a gente poderia reduzir para duas sem perder a essência.”
  • “Percebi que 90% dos usuários filtram os dados e depois exportam. E se a gente já gerasse o arquivo junto com o filtro?”
  • “Essa opção ‘avançada’ está lá há meses, mas os logs mostram que ninguém usa. Talvez seja melhor simplificar a interface.”

Melhorias que nascem da dor real do usuário

  • “Esta semana vieram três tickets de pessoas perdendo todo o progresso porque saíram da tela sem querer. Dá para salvar automaticamente?”
  • “Os usuários reclamam que ‘é muito lento’, mas o tempo de resposta está bom. Acho que é a animação que dá essa sensação.”
  • “No formulário de cadastro, todo mundo erra a formatação do CPF. Se colocarmos uma máscara automática, resolve.”

Melhorias que aliviam a operação

  • “Sempre que lançamos uma feature nova, o volume de logs explode e a equipe de operação sofre para monitorar. Podemos padronizar isso?”
  • “Essa consulta está pesando demais no banco. Se implementarmos paginação, melhora tanto para o usuário quanto para a infra.”

Melhorias que cuidam da infraestrutura

  • “A aplicação está consumindo muita memória nos horários de pico. Será que dá para carregar alguns módulos só quando forem necessários?”
  • “Se aquela API de terceiro cair, a tela fica completamente branca. Podemos pelo menos mostrar uma mensagem útil e tentar novamente?”

O que todas essas observações têm em comum?
Elas não vêm de um manual de testes.
Vêm de alguém que olha o sistema com múltiplos olhos do usuário, do desenvolvedor, do suporte, da infraestrutura.

E quando a empresa cria espaço para essa visão, o QA deixa de ser um ponto de verificação.
Vira um catalisador de melhorias contínuas em todas as frentes.


Como trazer para a prática

Ter um QA com essa mentalidade é um começo. Mas sozinho, ele não transforma cultura. É preciso que o time todo e a empresa criem espaço para que esse olhar faça diferença no dia a dia.

A boa notícia? Não precisa de uma revolução. Pequenos ajustes na rotina já abrem portas:

1. Convide o QA para o planejamento não só para estimar tempo

Em vez de chamar o QA só no final para perguntar “quanto tempo você precisa para testar?”, traga ele para a conversa desde o início. Deixe ele fazer a pergunta que ninguém mais faz:
“O que pode dar errado aqui?”
Antes de qualquer linha de código ser escrita, já se tem um termômetro de risco e uma visão de experiência.

2. Faça sessões rápidas de teste de usabilidade com gente de fora

Antes do lançamento, reúna duas ou três pessoas de outras áreas suporte, comercial, até alguém do financeiro que nunca viu a funcionalidade. Deixa elas usarem, sem roteiro, com o QA observando (sem interferir).
As expressões de confusão, os “ah, não sabia que era aqui”, os silêncios constrangedores isso vale mais que dezenas de casos de teste escritos.

3. Meça qualidade de um jeito que faça sentido

Parar de contar só “bugs encontrados” e começar a olhar:

  • Quantos problemas que o usuário reclamaria foram pegos antes pelo QA?
  • O tempo que o suporte gasta com dúvidas diminuiu depois de um lançamento?
  • O NPS ou a satisfação melhoraram após ajustes sugeridos pelo QA?
    Isso transforma o QA de “fiscal de bugs” para “guardião da experiência”.

4. Deixe o QA propor melhorias de verdade

Se ele notar que um fluxo é confuso, que uma tela demora para carregar, que um processo manual poderia ser automatizado… isso não pode ficar só no ar.
Crie um espaço no backlog para melhorias de experiência e qualidade e trate essas sugestões com a mesma seriedade que uma funcionalidade nova.
Às vezes, um ajuste pequeno no lugar certo resolve mais dor do que um feature inteira.

No fim, incorporar essa visão não é sobre criar processos novos.
É sobre abrir espaço para um olhar que já existe e deixar que ele influencie não só o que testamos, mas como construímos.


O impacto da mudança

Quando uma empresa entende que o QA não é um obstáculo no fluxo, mas um aliado estratégico, as coisas começam a mudar de forma sutil, mas profunda. E todo mundo ganha.

Para o desenvolvedor:

  • Menos retrabalho desgastante, porque os problemas são identificados antes de virar bugs em produção
  • Mais confiança no que entrega, sabendo que o código passou por um olhar que pensa no uso real
  • Aprendizado contínuo sobre usabilidade, experiência e pontos cegos que sozinho você nem perceberia

Para o produto:

  • Funcionalidades mais completas, com menos “furos” e cenários esquecidos
  • Menos retoques pós-lançamento, porque muitas das inconsistências foram resolvidas antes
  • Visão mais próxima do usuário real, sem precisar adivinhar porque o QA já trouxe essa perspectiva para a mesa

Para a empresa:

  • Redução de custos com suporte e correções de emergência
  • Produto mais competitivo e bem resolvido, porque foi pensado com cuidado desde a origem
  • Cultura de melhoria constante, que não para no código alcança design, experiência, operação e até infraestrutura

No fim das contas, tratar o QA como aliado estratégico não é sobre dar mais poder a uma pessoa.
É sobre reconhecer que qualidade não é uma etapa é um mindset que beneficia todo o ecossistema.

E quando isso acontece, ninguém mais pergunta: “Precisamos mesmo de QA?”.
A pergunta que surge é: “Como a gente trabalhou tanto tempo sem essa parceria?”


Comece agora mesmo

Transformar a relação com o QA não precisa ser uma mudança radical da noite para o dia. Às vezes, são os gestos simples aqueles que cabem na rotina que começam a virar a chave.

Aqui estão três ideias para você experimentar já na próxima semana:

  1. Na próxima refinement ou planning, convide o QA não só para ouvir, mas para opinar.
    Em vez de só passar os cards testados, pergunte: “E aí, o que você testaria aqui?” ou “Que cenário a gente pode ter esquecido?”. Deixe a pergunta aberta e espere a resposta. Pode surpreender.

  2. Crie um canal no Slack, Teams ou onde o time se comunique, só para “melhorias que fazem diferença”.
    Pequenos ajustes de UX, uma mensagem de erro confusa, um loading desnecessário… São coisas que o QA vê no dia a dia e que, se compartilhadas, podem ser resolvidas rápido. Incentive ele a postar e o time a responder.

  3. Antes de lançar uma funcionalidade nova, faça uma sessão de 15 minutos de “teste de resistência” com o time todo.
    Cada um pega o celular ou o navegador, abre a funcionalidade e tenta usá-la como se fosse a primeira vez sem ajuda, sem explicação. O QA observa e anota as reações. O que travou? Onde hesitaram? O que ninguém entendeu?
    É barato, rápido e ilumina pontos cegos que só aparecem quando a pessoa não é do técnico.

E se você quiser entender como essa visão de qualidade se conecta com automação, pipelines e entrega contínua, dá uma olhada no curso rápido de CI/CD.
Lá a gente conversa sobre como qualidade não é uma etapa isolada e como o QA é peça fundamental nesse fluxo que vai do código até o usuário.


Conclusão

Um QA que só verifica se funciona é um recurso.
Um QA que pensa como usuário, como produto, como operação e como infraestrutura… é um aliado estratégico.

E empresas que abraçam isso não estão apenas construindo software com menos bugs.
Estão construindo software que as pessoas gostam de usar e que é sustentável nos bastidores.

No fim, a pergunta não é mais: “Precisamos de um QA?”.
A pergunta que fica é: “Estamos prontos para ouvir o que o QA tem a dizer?”

Porque quem ouve o QA, ouve o usuário antes dele chegar.
E quem faz isso, entrega não só software entrega confiança.

Esta postagem está licenciada sob CC BY 4.0 pelo autor.